Na hora de escolher um candidato, eleitores colocam muitos pontos em perspectiva, desde a opção em que mais acreditam até o cálculo para evitar a vitória do campo opositor

Em 7 de outubro, o eleitor digitará na urna eletrônica os números de seis candidatos: deputado federal, deputado estadual (ou distrital), dois senadores, governador e presidente da República.

Até o dia da votação, parte do trabalho de cientistas políticos, dos institutos de pesquisa e, principalmente, das campanhas é analisar o comportamento do eleitor na tentativa de identificar suas escolhas e motivações.

A campanha presidencial atual é uma das mais imprevisíveis da história brasileira. E alguns candidatos estão explorando os mais variados sentimentos para conquistar votos, do medo ao pragmatismo.

Com argumentos diferentes, Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB) tentam convencer o eleitorado a optar pelo “voto útil” e evitar, por exemplo, a ida de Fernando Haddad (PT) para o segundo turno ou uma vitória de Jair Bolsonaro (PSL), atual líder das pesquisas. Esse cálculo estratégico define um dos três tipos de votos mais comuns dentro do comportamento do eleitor brasileiro. Abaixo, apresentamos as principais ideias em torno de cada um e como eles aparecem nas campanhas ou nas votações.

Voto sincero ou convicto
É aquele em que o eleitor escolhe seu candidato de preferência, sem pensar se o escolhido tem ou não chances de vencer. O eleitor vota porque acredita em sua opção.

Nas pesquisas de opinião, esse tipo de voto aparece quando o eleitor diz em quem vai votar sem precisar ler as opções apresentadas pelo entrevistador. É a chamada pesquisa espontânea, em que se faz uma pergunta como: “Já tem candidato? Se sim, quem é?”. O cientista político Adriano Oliveira, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), lembra que, na eleição atual, Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são os que mais atraem o voto convicto. Isso se traduz pela estabilidade do índice de preferência de votos deles nas sondagens. Lula, quando era candidato, liderava as pesquisas, com índices de até 39% dos votos. Ele foi barrado pela Lei da Ficha Limpa e substituído em 11 de setembro por Haddad. Já Bolsonaro vem mantendo índices entre 20% e 26%. Esses números constantes sugerem haver um percentual de um eleitor bastante fiel a eles, que dificilmente vai mudar o voto.

A convicção do voto de alguém pode ser explicada por uma série de fatores, por exemplo: identificação com a orientação ideológica identificação com o partido do candidato identificação de classe (se defende interesses que o representa) questões de proximidade (um amigo da família ou alguém do convívio profissional) avaliação da administração (em casos de candidatos à reeleição) situação econômica do país Voto útil ou estratégico É uma escolha em que o eleitor faz um cálculo estratégico, pensando nos efeitos que sua opção pode ter para o resultado da votação.

Em geral, esse raciocínio faz o eleitor a abrir mão de votar em um nome de sua preferência para derrotar o candidato que ele rejeita.

A escolha pelo voto útil parece mais perceptível na votação presidencial, mas também aparece nas eleições para deputados e senadores, segundo o cientista político Bruno Bolognesi, professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Além de evitar a vitória de um adversário, o voto útil pode ter outras motivações e expectativas.

Por exemplo: o eleitor deixa de votar no seu nome de preferência para deputado ou senador por acreditar que ele não terá chance, optando por outro mais competitivo o eleitor sabe que seu candidato preferido para o Legislativo terá os votos necessários por ser muito popular, então ele opta por “ajudar” um outro nome Bolognesi afirma que é possível verificar a influência do voto útil cruzando dados de pesquisas de opinião. Por exemplo: eleitores declaram voto em “A” e dizem que não votam em “B”. Se ao longo da campanha aqueles eleitores mudarem o voto para “C”, essa migração pode sugerir que a rejeição em “B” motivou a mudança.

Voto de protesto
É motivado por raiva ou descrença, na definição de Adriano Oliveira. O protesto pode ser manifestado tanto pelo voto em branco quanto nulo, ou ainda optando por um candidato que pareça irrelevante no cenário político. “Esse voto ocorre quando o eleitor está com raiva e escolhe um candidato radical ou folclórico para expressar esse sentimento.

É um eleitor que não tem tanto interesse na eleição e vai votar sem nenhum tipo de incentivo. A única intenção dele é demonstrar sua revolta” Adriano Oliveira cientista político, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) A mensuração desse tipo de voto é mais difícil, na avaliação de Bolognesi. Segundo ele, um número acima da média de votos em branco ou nulo pode sugerir que o protesto tenha motivado essa reação.

Quando os votos eram no papel, lembra o professor, muitos eleitores rasuravam a cédula, xingavam candidatos, o que indicava mais claramente o protesto. Mas essas manifestações deixaram de ocorrer a partir do uso da urna eletrônica — usada em todo o país pela primeira vez em 2000, a partir de quando caiu o percentual de votos brancos e nulos.

O voto útil na eleição de 2018 O debate sobre o voto útil costuma ganhar força às vésperas da votação. Mas em 2018 o voto útil já entrou na campanha um mês antes de o eleitor ir às urnas.

Na avaliação da cientista política Maria Teresa Kerbauy, a antecipação deve-se a duas razões principais: ao sentimento antipetista, consequência da crise política envolvendo o partido, e à candidatura de Bolsonaro, que concentra 44% de rejeição, índice mais alto entre os 13 candidatos, segundo o Datafolha de 14 de setembro. Ciro, Alckmin e Marina, quando pregam a tese do voto útil, exploram ora os ataques ao PT, ora a Bolsonaro. Ciro tenta atrair simpatizantes petistas que ficaram órfãos com a saída de Lula e o eleitor de centro.

Para isso, tenta conciliar críticas ao PT com a ideia de que tem mais condições de derrotar Bolsonaro do que Haddad num eventual segundo turno. Alckmin, por sua vez, tem dito que votar em Bolsonaro é “passaporte para a volta do PT”, sugerindo que somente ele tem condições de derrotar Haddad num eventual segundo turno. Já Marina se apresenta como a alternativa para dar um “ponto final” à polarização, em referência às campanhas do PT, do PSDB e de Bolsonaro, conhecido por suas propostas combativas na área de segurança pública. “Acho que é bom sinal debater o voto útil porque pode significar que o eleitor está mais atento ao jogo eleitoral. Mas, do ponto de vista do debate político, é um mau sinal, porque não há uma opção motivada pelas propostas de governo. Reflete em parte a fragilidade do debate eleitoral e mostra que, para muitos eleitores, não há quem os represente” Maria Teresa Kerbauy cientista política e professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Para Bolognesi, a antecipação da estratégia está associada ao acirramento da disputa.

Ao contrário das eleições anteriores, em que havia polarização clara entre PT e PSDB, agora não há clareza sobre quem vai para o segundo turno, o que faz com que as campanhas apelem antes ao voto estratégico, recurso que, em sua opinião, é algo positivo. “Discutir voto útil é sinal de maturidade democrática. Todo mundo age estrategicamente na vida.

Por que não agiríamos dessa forma nas eleições? O voto útil, no caso do Brasil, mostra que as pessoas estão conseguindo compreender minimamente a disputa e o cardápio eleitoral.

Numa disputa confusa, com tantos partidos, com eleições focadas em pessoas [e não em projetos políticos], conseguir identificar voto útil, acho que é um avanço” Bruno Bolognesi cientista político, professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná)

Fonte e Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/09/14/Voto-%C3%BAtil-voto-convicto-e-voto-de-protesto-a-l%C3%B3gica-do-eleitor?utm_campaign=Eleicoes2018&utm_medium=Email&utm_source=Newsletter

Posted by:Ricardo Garcia

Cidadão São Bernardense, Empreendedor, Empresário.