Thaiza Vitoria, Consultor Jurídico


Advocacia sincericída


“Eu sou assim mesmo, falo o que eu penso. Sou uma pessoa autêntica. Não tenho culpa se você não aguenta ouvir a verdade!!!”

Pois bem, esta afirmação merece um exame cuidadoso, por isso vamos conversar um pouco sobre a diferença entre autenticidade e grosseria na advocacia.

A habilidade de se comunicar bem é cada vez mais exigida pelo mercado jurídico como uma das competências essenciais, não só para prosperar na carreira e nos negócios, mas também para manter a harmonia e satisfação nos relacionamentos em geral.

E quando se fala de comunicação não é apenas aquele processo simples que se aprende na escola, em que um emissor passa uma mensagem por um determinado canal e que chega até o seu provável receptor. Além de serem “bons de papo”, os advogados precisam dominar a comunicação positiva.

Mas como se fazer compreender e ser compreendido na advocacia e fora dela? Como dar e receber feedback sem temer ou se ofender?

É justamente esse ponto que a Comunicação Positiva se propõe a desenvolver na advocacia. E hoje vamos tratar das dinâmicas de fala que mais geram conflitos entre os colegas, o famoso feedback… e a primeira coisa que devemos fazer nesse tópico, é diferenciar autenticidade de grosseria, senão, vejamos:

Autenticidade é o atributo necessário para um diálogo positivo na advocacia e na vida pessoal. “Autós” em grego significa a posse, a propriedade, o domínio de si próprio, portanto, ser autêntico é ter domínio de si.

Advogados autênticos conseguem manter seu equilíbrio mental e emocional em situações de tensão, conflito ou crise.

Autenticidade é o exercício da expressão do que sentimos, pensamos e acreditamos, ou seja, é SER SINCERO.

Existem situações bem delicadas que necessitam da nossa máxima sinceridade, mas como tocar em temas inflamáveis sem ofender as pessoas?

Pedir um aumento. Terminar uma sociedade. Fazer uma correção sobre o decote da estagiária. Negar um adiantamento. Discordar do gestor…

Tentamos “fingir surdência”, mas o grilo falante sempre nos recorda de que temos que falar a verdade. Agora imagine a seguinte situção:

Dra. Ana ouviu, sem querer, sua sogra dizer aos vizinhos que seus filhos são criados pela babá e que a mãe só vive para o trabalho, enquanto se prepara para passar as férias na casa dela…Como ela pode ser sincera sem cometer sincericídio?

É claro que há também os problemas do dia a dia, que exigem a nossa sinceridade, situações que parecem mais simples, mas que mesmo assim causam ansiedade: devolver mercadoria sem um recibo, pedir a sua vizinha que não fume na porta do seu escritório, devolver o prato que chegou frio à mesa…

Essas são interações que evitamos o quanto podemos pelo medo de magoar as pessoas ou de sermos rejeitados posteriormente. Mas temos que ser sinceros, a verdade não nasceu para ser escondida.

O dilema: Estou diante de alguém que causou prejuízo a mim ou a outrem, e preciso usar da sinceridade para expor minha opinião, na intenção de que o equívoco seja corrigido.

Mas será que a minha fala (sincera) tem a intenção de corrigir um prejuízo ou apenas busco defender uma ideia?

A resposta para essa pergunta faz toda a diferença na construção de um diálogo, podendo torná-lo positivo ou negativo, a depender da intenção por trás das palavras (sinceras).

Diferente de ser sincero, é ser sincericida (falar o que pensamos de modo negativo), onde avaliamos o comportamento, características, pensamentos, falas, atitudes e escolhas de outras pessoas, normalmente usando um tom de voz alterado, rótulos, sentenças e condenações que geram um clima tenso e negativo.

A sinceridade é altruísta ao trazer junto de si a ideia de corrigir com amor. O sincericídio, por outro lado, é util em produzir mágoas e machucados profundos em nome da expressão do que pensamos e sentimos sobre o outro.

Dizem que para sermos honestos não precisamos dizer tudo o que pensamos, mas nunca dizer o contrário do que pensamos.

Os psicólogos adotaram o termo sincericídio para definir aquele comportamento pelo qual uma pessoa que se julga honesta e corajosa,expressa a sua opinião de modo negativo.

Ser honesto sem se tornar um sincericida requer muita prática. Implica em colocar-se no lugar da outra pessoa, sabendo escolher as palavras certas para preservar a relação e o bem estar de todos os envolvidos.

Isso quer dizer que, para não machucar os outros, é necessário mentir?

De modo algum. Nenhuma relação baseada em mentiras pode prosperar.

A melhor atitude é comunicar honestamente o que precisamos dizer, mas com empatia, encontrando o momento certo e a forma adequada para expressarmos a nossa opinião.

E, na maioria das vezes, as nossas opiniões são apenas nossas. Nem sempre são compartilhadas por quem a escuta, muito menos pela coletividade.

As pessoas que têm boas habilidades sociais são as que sabem ser sinceras, sem machucar os outros. Não se trata de mentir, mas sim de transmitir a informação de maneira positiva. A nossa verdade, transmitida com inteligência e motivada por boas intenções, será sempre benéfica.

E se examinarmos bem direitinho, conseguiremos sentir o momento em que nossas “verdades sinceras” estão sendo armas de ataque. Basta que notemos a nossa escrita (caixa alta, pontos de exclamações, reticências fora de ordem, as batidas do coração, a temperatura do corpo, xingamentos, dificuldade de calar, pensamentos compulsivos, palavras na ponta da língua e um profundo desejo de se impor.

A raiva não mente.

Por mais que queiramos, o AMOR NÃO PODE SER CONFUNDIDO COM ÓDIO. E nenhum ataque pode ser justificado em nome da verdade.

Na minha profissão, a segunda coisa que mais faço é conversar, a primeira é escutar. E atualmente tenho me espantado com a quantidade pessoas que se queixam de conversas difíceis.

Lidar com grosseria talvez não seja o forte de ninguém, afinal, quem lida bem com maus tratos?

E como sabermos se estamos sendo pessoas difíceis de conversar? Eis alguns padrões típicos:

1. Você já percebeu se escuta os áudios do whatsApp respondendo por partes, antes mesmo de escutá-los até o fim?

2. Você já notou se interrompe as pessoas com frequência, como se você tivesse engasgado e precisasse falar para não explodir?

3. Você já declarou adivinhar pensamentos?

4. Você já declarou adivinhar a intenção dos outros?

5. Você já julgou o silêncio como ataque ou desdém?

6. Você já chamou alguém para a briga com frases tipo: se você é homem, diga o que pensa na minha cara?

7. Para você, pessoas honestas falam “na cara” e “sem rodeios”

8. Você se ressente quando alguém não te elogia?

9. Você critica pessoas quando elas se afastam do seu convívio?

10. Você costuma afirmar que não está criticando, mas que apenas está dizendo a verdade?

11. Você costuma dizer que sua fala é firme e que as pessoas são vaidosas/orgulhosas para se corrigirem?

É muito fácil confundirmos transparência com agressividade quando nossas convicções são contrariadas, e a primeira coisa que buscamos fazer após um conflito, é nos afastar do nosso “opositor”.

No entanto, existem situações em que o convívio é inevitável, e saber lidar com a conflitos é sinônimo de inteligência emocional. Mesmo que você não tenha nascido um monge budista, poderá praticar respostas positivas à ataques pessoais.

Grosseria: parâmetros

De forma bem simples, grosseria é uma fala que machuca o outro e que não diríamos para alguém no leito de morte, por exemplo.

Há vários fatores a considerarmos para avaliarmos uma comunicação como grosseira ou negativa:

Conteúdo – o que se quer dizer, a escolha das palavras.

Tom de voz – diz respeito à entonação e ao volume da voz.

Ênfases – são palavras “escolhidas” que recebem um peso maior ou menor.

Local e hora – também afetam diretamente a percepção da sinceridade ou da grosseria.

Postura corporal

Grosseria: exemplos

Sincera – Se você me disse isso ontem, eu não ouvi.

Grosseira – Você NÃO me disse isso ontem, tenho CERTEZA.

……

Sincera – Eu não li sua mensagem, estava ocupada.

Grosseira – Eu não pude ler sua mensagem, mas também, aquele texto imenso.

Veja que há diferença entre EU e VOCÊ. Quando eu escolho estruturar a minha fala sob o ponto de vista de como eu percebo, vejo, sinto e interpreto o que o outro fala, então ele não se sente invadido ou maltratado, porque a comunicação está centralizada na MINHA compreensão.

Diferente disso é quanto eu escolho eleger o OUTRO como sujeito absoluto das causas e consequências do caso, iniciando as frases com “VOCÊ”, seguida de avaliações, conjecturas, acusações e julgamentos moralizadores.

Mas, afinal de contas, como lidar com falas grosseiras?

Aqui estão alguns exemplos de respostas que podem funcionar ou não…só testando mesmo 😊

1. “Sua opinião é importante para mim”

Esta frase permite que a pessoa perceba que ela é mais importante do que as palavras que estão saindo da sua boca.

2. “Por que você está me dizendo isso? “

Você pode usá-la quando a agressão se torna algo totalmente sem significado, tal como se a pessoa estivesse falando com outra e não com você.

3. “Você gosta de ser grosseiro?”

Alguém que é constantemente rude as vezes nem percebe que está sendo desagradável e pode realmente ter associado violência a força e proteção.

4. “Você está machucando meus sentimentos”

Às vezes, a melhor maneira de revelar um ato grosseiro é mostrar como ele afetou seu sentimento. As vezes a pessoa realmente não tem compreensão sobre a dor que está causando.

5. “Eu penso que devemos interromper essa conversa agora”

Usando essa frase você mostrará que não está gostando da conversa e não quer fazer parte dela, e dará o tempo necessário para ambos refletirem.

Prezados, a verdade sempre tem a ver com brilho nos olhos. Quando o que temos nos olhos são sangue, a verdade já não está presente.

E você, como tem feito para lidar com conflitos e relacionamentos difíceis?